31.10.2014

Comportamento desviante entre adolescentes: O que fazer ?

Em 2009, a consultora aposentada, Flávia Costa Hahn , de 60 anos, moradora de um bairro nobre de porto alegre, matou seu único filho, Tobias Hahn, de 24 anos. O rapaz consumia crack desde os 18 anos. Em abril do ano passado, depois de passar três noites em claro fumando crack, Tobias voltou para casa para pedir dinheiro. Flávia conta que discutiu com o filho, foi agredida e, para se defender, pegou um revolver da coleção de armas do marido. A arma disparou e atingiu Tobias no pescoço.

Ele morreu na hora. Em outro caso, o músico Kligierman, de 26 anos, jovem de classe média alta, morador da zona sul do rio de janeiro, sufocou até a morte a amiga de 16 anos, Barbara Calazans. Ele havia consumido crack a noite toda. Seu pai, Luiz Fernando Prôa, o entregou a polícia.

A funcionária publica Sônia, descobriu que seu filho mais novo, então com 13 anos, era usuário de drogas. Sônia, o marido e os filhos viviam num condomínio de classe media alta no interior de são Paulo. O caçula havia começado a fumar desde os 11 anos com amigos. Seu rendimento escolar despencou ele trocou as amizades e se distanciou dos irmãos. “Achei que era um problema de idade, da adolescência”, afirmara a mãe. Hoje, aos 17 anos, o caçula de Sônia está internado. Pela segunda vez, ele tenta largar o vício. (TURRER, R.; MAIA, H. 2010, p. 75)

Os relatos acima são de jovens e adolescentes com comportamentos desviantes que continuaram numa trajetória de condutas anti-sociais delinqüentes com distúrbio de personalidade: mais específico, usuário de drogas; sendo que alguns chegaram ao ponto da conduta delituosa de alto risco pessoal e social.
Desde a mitologia grega, com mito de Ícaro, ouvimos falar do comportamento desviante: para satisfazer seus desejos pessoais, a rainha de Creta e esposa do rei Minos, Pasífae, aprisiona Ícaro e seu pai, Dédalo, na prisão-labirinto do palácio. Para libertar o filho, Dédalo lhe constrói asas. E aqui é que se encontra a definição de comportamento desviante, pois, o pai lhe diz: “meu filho, fique atento! jamais voe alto demais, porque o sol pode derreter a cera, nem muito baixo, porque o mar pode molhar as penas.”, Mas o arquétipo do inconsciente coletivo forte na psique do adolescente de grandeza narcísica, de fantasia da onipotência, não enxerga o perigo; vê-se, então, Ícaro inebriado com a força e a velocidade daquelas asas e se recusa atender os limites impostos pelo pai. Em pouco tempo, Dédalo verá de seu filho algumas penas espalhadas flutuando no mar.

Nas pesquisas desenvolvidas nos últimos trinta anos, a psicologia tem evidenciado quatro tipos de distúrbios psicológicos: o narcisista; as perversões; as delinqüências e os vícios (Wieder, 1977). O autor acentua que esses tipos comungam o mesmo transtorno: o defeito do “eu” e suas conseqüências. Eles têm na mente as tentativas para o insucesso e somente uma válvula de escape para sanar esse defeito central da personalidade.

Por exemplo: o narcisista precisa muito ser elogiado e aprovado; sem um apoio de outros ele não consegue prover suficientemente a própria auto-aprovação; o pervertido se dirige às ações sexuais com figuras ou símbolos que dão a ele o sentimento de ser desejado, real, vivo, ou de poder; o delinqüente repete as mesmas ações as quais ele demonstra a si mesmo um preenchimento da falta que sente de não sustentar a auto-confiança e ideais; o viciado corre em busca de drogas porque a droga parece ser capaz de substituir seu “eu” que falhou numa época em que ele ainda poderia ter tido controle onipotente às respostas de seus anseios.

O comportamento desviante na adolescência pode ser interpretado como tentativa de expressar autonomia (Aguilar, Sroufe, Egeland & Carlson, 2000). Segundo  Capaldi e Stoolmiller (1999), tais comportamentos atingem um pico entre 15 e 17 anos, havendo um declínio na sua ocorrência devido a entrada na idade adulta. Nessa fase, Braconnier e Marcelli (2000) e Kammerer (1992) percebem um duplo desafio para o adolescente: a necessidade de separação e a conquista de autonomia em relação aos pais. Nessa guerra, o adolescente vai à procura de seus próprios limites, que tantas vezes leva à transgressão de caráter positivo ( as redefinições do seu novo modo de ver e criticar o mundo) ou negativo ( agressão física e verbal, isolamento suicida, bulemia/anorexia, uso de drogas, etc.) e dependendo como o problema é tratado poderá induzi-lo à cristalização dessas atitudes negativas.
Qualquer estratégia de transgressão (desobediência, excesso de autonomia, isolamento, agressividade, etc.) manifestada por adolescentes é considerada pela família, sistema escolar ou qualquer instituição repressora como personalidade perturbada e perigosa para a sociedade. Testemunhamos na nossa cidade, por exemplo, adolescentes entre 15 e 17 anos com marcas de desespero e de autodestruição (transgressões negativas) devido aos relacionamentos distorcidos e preconceituosos já no núcleo familiar.

Souza (2008, p. 105-107) discorre em seu artigo que a família é uma estrutura humana que garante o ambiente propício para essa introdução da criança na humanidade e para a construção harmoniosa da sua personalidade. É um dever da comunidade (núcleo familiar) zelar para que as aprendizagens e as práticas se façam no respeito pelos direitos fundamentais do homem, como princípios de igualdade, reciprocidade, respeito mútuo, justiça e solidariedade. Qualquer indivíduo deve ser iniciado na defesa dos seus direitos como treinado à prática de seus deveres de filho, colega, parceiro e cidadão.
Portanto, o primeiro passo de poder enfrentar o problema dos comportamentos desviantes dos adolescentes é não confrontar o jovem e muito menos compará-lo a ninguém. É ajudá-lo a compreender conceitos como o de responsabilidade, que se concretizará no responder e assumir as conseqüências dos seus atos e na capacidade de iniciar comportamentos responsáveis como ajudar o mais próximo e se engajar em projetos sociais em prol do mais necessitado.

O jovem perceberia desde cedo que a corrida narcísica pela beleza perfeita, tão presente no pensamento contemporâneo, é uma fuga, uma válvula de escape que o induz à exclusão, ao preconceito, à separação de classes, ao ódio, à presunção de ser o único no planeta, o que contribui ao isolamento de auto-destruição.

Flávia Costa Hahn, 60 anos, Foto:Cynthia Vanzella

"Ícaro e Dédalo", por Charles Paul Landon

Eviselma Fonseca Vieira
Diretora do curso de idiomas People
Concludente do mestrado em Ciências da Educação.

Sobre Wesley Andrade

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